JANELAS COM TABUINHAS
Imagino que escrever o primeiro parágrafo do primeiro texto de um novo blogue seja sempre um processo fodido. Confesso que assim o foi, talvez porque funcione como uma pequena carta de apresentação, do blogue e do autor, mas também como um filtro.
Com este problema resolvido, passo a desenvolver a imagem maior deste espaço de partilha de ideias. Tenho demasiado respeito pelo trabalho árduo e sério dos escritores profissionais, e também pelo domínio técnico da língua, que não partilho. Este não será um blogue de alta qualidade literária. Mais do que mera montra de opinião, proponho-vos que o blogue seja um espaço de debate, um espaço que permita abrir portas a uma reflexão minimamente estruturada sobre esta arte a que chamamos Fado.
O nome foi também objeto de alguma reflexão. Em abono da verdade, e embora adore os portais de madeira, aquilo que quero é debruçar-me sobre as suas tabuinhas, abrindo-as de par em par. A imagem é tirada de um fado sobejamente conhecido, com letra de Silva Tavares, e que ficou eternizado por Alfredo Marceneiro. É-me difícil imaginar uma iconografia sobre Lisboa que não preveja a inclusão de umas belas janelas, com as suas multifuncionais tabuinhas. Podemos admirá-las apenas como ornamento ou pela prática contribuição que dão, quando isolamos uma casa do frio ou da luz. Mas para Silva Tavares, e através da voz e estilo de Alfredo Marceneiro, as tabuinhas servem a função maior de isolar um pequeno mundo — com toda a sua idiossincrasia e todos os seus segredos — dos indiscretos olhares de um outro. É o interior da casa da Mariquinhas que se quer resguardar de todo e qualquer olhar do resto do mundo, desse mundo externo que julga porque não entende, e que é aqui personificado pelas vizinhas, numa simples e dual cosmogonia. Uma bela metáfora, não vos parece? E assim começa o Fado:
É numa rua bizarra
A casa da mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
E janelas com tabuinhas
Até ao final do século passado, o Fado surgia-nos como uma forma de expressão algo esotérica. O testemunho era passado praticamente de mão em mão entre amigos e familiares, tal como a arte do acompanhamento; não é de estranhar que alguns dos maiores acompanhadores da actualidade sejam familiares de grandes fadistas ou de grandes músicos. Também o bairro onde se nascia ou vivia desempenhava um papel absolutamente central no cultivo e até no próprio culto da personalidade fadista — como um caldeirão cheio de vivências, temperando a gosto o sentir de cada um. Nem todos eram aceites no seio da comunidade fadista; ninguém chegava do nada aos locais de culto dizendo que queria cantar, ou de guitarra na mão e pedindo para tocar ao lado de quem quer que fosse. Aproximavas-te devagarinho, e sempre de rabo entre as pernas, à semelhança do cão desgarrado que tenta a sua sorte numa nova matilha. Era comum levares uns figurados cascudos ou mesmo uma corrida, três, quatro, cinco, dez vezes, se necessário. Só a perseverança e a demonstração de respeito poderiam fazer com que fosses aceite — e tão importante que era, este processo de triagem!
Esse é o Fado que aprendi a amar; o Fado que apurou, durante mais de um século, em ambiente muito controlado, baseado apenas nalgumas premissas simples. E é por ele que me bato, numa história de amor como tantas outras, lutando para manter as coisas boas que o definem. Que qualquer definição terá sempre uma boa dose de subjetividade? Parece-me evidente. Daí este ser um espaço aberto à discussão.
A visão que defendo é relativamente simples: temos uma expressão artística que apurou por muito tempo em Lisboa, e fê-lo enquanto estava confinada a um micro clima social. No século XX, e até ao início dos anos sessenta, a influência de outras expressões na sua essência, expressões como o Jazz ou o choro ou a então jovem Bossa, não terá sido nula, mas relativamente controlada. E antes disso, durante a segunda metade do século XIX? Não é necessário ser-se um génio para se concluir que as influências exteriores seriam menos incisivas; ainda não tínhamos a rádio nem os discos, muito menos a internet. Éramos visitados por gente de outros mundos, sobretudo da lusofonia; gente do Brasil e de África, que trazia algo seu, é certo, mas séculos depois de ter recebido algo nosso também. Parece-me óbvio que quase tudo é influenciado por quase tudo, desde que existam pontos de contacto.
Acho que ninguém porá em causa o apurado trabalho de análise das fontes que os historiadores profissionais fazem (e tão bem). Mas para falarem de influências com real autoridade, teriam que estudar e entender melhor o próprio processo da influência, que é bem mais do foro das neurociências e da Network Science do que da História, para dizer o mínimo. De outra forma, andamos em discussões que são pouco mais que estéreis, quando fora do meio académico. Dizer que o Fado não teve alguma influência exterior é uma aberração tão grande como dizer que essa influência é que o define e o diferencia. Olhando as palavras do José Mário Branco, percebe-se um pouco esta mania de querer desvalorizar algo, dizendo que não é totalmente nosso. Como se isso desvalorizasse fosse o que fosse! A Lisboa não lhe dera estar segura que o seu canto é sem mistura porque não existe tamanho absurdo. Mostrem-me um canto, oriundo de qualquer um dos cantos do mundo, que não tenha mistura alguma. Basta-me um só canto que seja, um canto construído com total ausência de uma influência exterior. Este ponto é tão, mas tão ridículo, que, muito honestamente, e até ser endereçado como deve, não me move um milímetro que seja.
Quando ouvimos fados gravados nos anos trinta, quarenta ou cinquenta, o que é que escutamos e sentimos, realmente? Uma expressão que se assemelha a tantas outras da época, espalhadas por esse mundo fora? Ou será que ouvimos algo próprio, único e de valor incalculável — o tal imaterialismo que nos foi reconhecido? Eu sinto a segunda, claramente. Depois ouvimos o mainstream do século XXI, o chamado “Novo Fado”, e o que é que escutamos? Bom, como não posso falar pelos outros, partilharei a minha experiência: logo a seguir ao som do meu próprio vómito, reconheço uma expressão que desprezo profundamente; uma expressão que me leva a revisitar o plástico e a pipoca daquele cinema que se escreve com letra pequena: Pop-Pop-Pop faz o fadinho dos dias de hoje; Pop-Pop-Pop faz o fadinho do agente e o fadinho do músico de outras escolas, mas que agora já consegue pagar a renda; Pop-Pop-Pop faz o fadinho dos fadistões e das fadistonas que herdaram a essência no sangue, mas que a trocam pela fama e pelo vil metal, sujeitando-se a serem pouco mais que fadistinhos e fadistinhas a sofrer de ansiedade artística.
Termina agora em grande, Alfredo, e canta-nos como foi:
Limpa as mobílias com óleo
de amêndoa doce e mesquinhas
passam defronte as vizinhas
para ver o que lá se passa
Mas ela tem por pirraça
janelas com tabuinhas
Pois é então isto que proponho, a nós, que somos do Fado, e aos outros, aos que deixaram de o ser por questões de sobrevivência: está na hora de abrirmos as tabuinhas ao grande público. Vamos deixar que as vizinhas entrem em nossa casa e que vejam, à sua vontade, o que cá se passou e aquilo que ainda se passa nalguns raros recantos. Foi o nosso secretismo que fez com que as pobres se sentissem segregadas, como crianças às quais é negada a partilha do brinquedo alheio. A forma como o Fado tem sido mal tratado é mero reflexo do que acontece quando alguém se sente posto de parte nesta época de acesso fácil à má informação e à fama rápida e não sustentada. Nesta época das redes sociais e das plataformas de partilha imediata, se um objeto for difícil de abordar, porque exige muito tempo, muito trabalho e muita dedicação para entender e dominar, há sempre uma corrente alternativa que se forma, uma corrente de mediocridade e de facilitismo, que leva o pobre de espírito a crer que afinal não é preciso nenhum trabalho específico para se entrar neste ou naquele clube, outrora exclusivo. “Quem são eles para dizer o que é e o que não é o Fado? Para dizer quais os instrumentos que podemos usar, quais as fusões — e já me vomitei outra vez — que podemos fazer? O Fado é música, e qualquer músico a pode tocar, qualquer cantor o pode cantar.” Pois escutem-me agora, arautos da exclusão, gente do imediato e do culto da facilidade, escutem e arrepiem-se perante a viagem de montanha russa que se aproxima. O Fado não é um género ou estilo musical. É do caralho, não é?
Até já.
Com este problema resolvido, passo a desenvolver a imagem maior deste espaço de partilha de ideias. Tenho demasiado respeito pelo trabalho árduo e sério dos escritores profissionais, e também pelo domínio técnico da língua, que não partilho. Este não será um blogue de alta qualidade literária. Mais do que mera montra de opinião, proponho-vos que o blogue seja um espaço de debate, um espaço que permita abrir portas a uma reflexão minimamente estruturada sobre esta arte a que chamamos Fado.
O nome foi também objeto de alguma reflexão. Em abono da verdade, e embora adore os portais de madeira, aquilo que quero é debruçar-me sobre as suas tabuinhas, abrindo-as de par em par. A imagem é tirada de um fado sobejamente conhecido, com letra de Silva Tavares, e que ficou eternizado por Alfredo Marceneiro. É-me difícil imaginar uma iconografia sobre Lisboa que não preveja a inclusão de umas belas janelas, com as suas multifuncionais tabuinhas. Podemos admirá-las apenas como ornamento ou pela prática contribuição que dão, quando isolamos uma casa do frio ou da luz. Mas para Silva Tavares, e através da voz e estilo de Alfredo Marceneiro, as tabuinhas servem a função maior de isolar um pequeno mundo — com toda a sua idiossincrasia e todos os seus segredos — dos indiscretos olhares de um outro. É o interior da casa da Mariquinhas que se quer resguardar de todo e qualquer olhar do resto do mundo, desse mundo externo que julga porque não entende, e que é aqui personificado pelas vizinhas, numa simples e dual cosmogonia. Uma bela metáfora, não vos parece? E assim começa o Fado:
É numa rua bizarra
A casa da mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
E janelas com tabuinhas
Até ao final do século passado, o Fado surgia-nos como uma forma de expressão algo esotérica. O testemunho era passado praticamente de mão em mão entre amigos e familiares, tal como a arte do acompanhamento; não é de estranhar que alguns dos maiores acompanhadores da actualidade sejam familiares de grandes fadistas ou de grandes músicos. Também o bairro onde se nascia ou vivia desempenhava um papel absolutamente central no cultivo e até no próprio culto da personalidade fadista — como um caldeirão cheio de vivências, temperando a gosto o sentir de cada um. Nem todos eram aceites no seio da comunidade fadista; ninguém chegava do nada aos locais de culto dizendo que queria cantar, ou de guitarra na mão e pedindo para tocar ao lado de quem quer que fosse. Aproximavas-te devagarinho, e sempre de rabo entre as pernas, à semelhança do cão desgarrado que tenta a sua sorte numa nova matilha. Era comum levares uns figurados cascudos ou mesmo uma corrida, três, quatro, cinco, dez vezes, se necessário. Só a perseverança e a demonstração de respeito poderiam fazer com que fosses aceite — e tão importante que era, este processo de triagem!
Esse é o Fado que aprendi a amar; o Fado que apurou, durante mais de um século, em ambiente muito controlado, baseado apenas nalgumas premissas simples. E é por ele que me bato, numa história de amor como tantas outras, lutando para manter as coisas boas que o definem. Que qualquer definição terá sempre uma boa dose de subjetividade? Parece-me evidente. Daí este ser um espaço aberto à discussão.
A visão que defendo é relativamente simples: temos uma expressão artística que apurou por muito tempo em Lisboa, e fê-lo enquanto estava confinada a um micro clima social. No século XX, e até ao início dos anos sessenta, a influência de outras expressões na sua essência, expressões como o Jazz ou o choro ou a então jovem Bossa, não terá sido nula, mas relativamente controlada. E antes disso, durante a segunda metade do século XIX? Não é necessário ser-se um génio para se concluir que as influências exteriores seriam menos incisivas; ainda não tínhamos a rádio nem os discos, muito menos a internet. Éramos visitados por gente de outros mundos, sobretudo da lusofonia; gente do Brasil e de África, que trazia algo seu, é certo, mas séculos depois de ter recebido algo nosso também. Parece-me óbvio que quase tudo é influenciado por quase tudo, desde que existam pontos de contacto.
Acho que ninguém porá em causa o apurado trabalho de análise das fontes que os historiadores profissionais fazem (e tão bem). Mas para falarem de influências com real autoridade, teriam que estudar e entender melhor o próprio processo da influência, que é bem mais do foro das neurociências e da Network Science do que da História, para dizer o mínimo. De outra forma, andamos em discussões que são pouco mais que estéreis, quando fora do meio académico. Dizer que o Fado não teve alguma influência exterior é uma aberração tão grande como dizer que essa influência é que o define e o diferencia. Olhando as palavras do José Mário Branco, percebe-se um pouco esta mania de querer desvalorizar algo, dizendo que não é totalmente nosso. Como se isso desvalorizasse fosse o que fosse! A Lisboa não lhe dera estar segura que o seu canto é sem mistura porque não existe tamanho absurdo. Mostrem-me um canto, oriundo de qualquer um dos cantos do mundo, que não tenha mistura alguma. Basta-me um só canto que seja, um canto construído com total ausência de uma influência exterior. Este ponto é tão, mas tão ridículo, que, muito honestamente, e até ser endereçado como deve, não me move um milímetro que seja.
Quando ouvimos fados gravados nos anos trinta, quarenta ou cinquenta, o que é que escutamos e sentimos, realmente? Uma expressão que se assemelha a tantas outras da época, espalhadas por esse mundo fora? Ou será que ouvimos algo próprio, único e de valor incalculável — o tal imaterialismo que nos foi reconhecido? Eu sinto a segunda, claramente. Depois ouvimos o mainstream do século XXI, o chamado “Novo Fado”, e o que é que escutamos? Bom, como não posso falar pelos outros, partilharei a minha experiência: logo a seguir ao som do meu próprio vómito, reconheço uma expressão que desprezo profundamente; uma expressão que me leva a revisitar o plástico e a pipoca daquele cinema que se escreve com letra pequena: Pop-Pop-Pop faz o fadinho dos dias de hoje; Pop-Pop-Pop faz o fadinho do agente e o fadinho do músico de outras escolas, mas que agora já consegue pagar a renda; Pop-Pop-Pop faz o fadinho dos fadistões e das fadistonas que herdaram a essência no sangue, mas que a trocam pela fama e pelo vil metal, sujeitando-se a serem pouco mais que fadistinhos e fadistinhas a sofrer de ansiedade artística.
Termina agora em grande, Alfredo, e canta-nos como foi:
Limpa as mobílias com óleo
de amêndoa doce e mesquinhas
passam defronte as vizinhas
para ver o que lá se passa
Mas ela tem por pirraça
janelas com tabuinhas
Pois é então isto que proponho, a nós, que somos do Fado, e aos outros, aos que deixaram de o ser por questões de sobrevivência: está na hora de abrirmos as tabuinhas ao grande público. Vamos deixar que as vizinhas entrem em nossa casa e que vejam, à sua vontade, o que cá se passou e aquilo que ainda se passa nalguns raros recantos. Foi o nosso secretismo que fez com que as pobres se sentissem segregadas, como crianças às quais é negada a partilha do brinquedo alheio. A forma como o Fado tem sido mal tratado é mero reflexo do que acontece quando alguém se sente posto de parte nesta época de acesso fácil à má informação e à fama rápida e não sustentada. Nesta época das redes sociais e das plataformas de partilha imediata, se um objeto for difícil de abordar, porque exige muito tempo, muito trabalho e muita dedicação para entender e dominar, há sempre uma corrente alternativa que se forma, uma corrente de mediocridade e de facilitismo, que leva o pobre de espírito a crer que afinal não é preciso nenhum trabalho específico para se entrar neste ou naquele clube, outrora exclusivo. “Quem são eles para dizer o que é e o que não é o Fado? Para dizer quais os instrumentos que podemos usar, quais as fusões — e já me vomitei outra vez — que podemos fazer? O Fado é música, e qualquer músico a pode tocar, qualquer cantor o pode cantar.” Pois escutem-me agora, arautos da exclusão, gente do imediato e do culto da facilidade, escutem e arrepiem-se perante a viagem de montanha russa que se aproxima. O Fado não é um género ou estilo musical. É do caralho, não é?
Até já.
Curto, sintético, resumido, conciso : É !
ResponderEliminarObrigado, Vítor. Agora virá o resto; prevejo um parto doloroso, mas vai valer a pena
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