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O FIM DO CLUBE DE FADO

Sei que uma parte da comunidade do Fado me vê como um fundamentalista  da tradição, achando que sou um velho do Restelo altamente inconveniente e incómodo. Vou tentar agora mostrar-vos a conexão existente entre os motivos que me levam a dizer o que penso, e que, em última análise, levam a essa leitura errada sobre a minha postura, e a recente venda do Clube de Fado a um grupo económico. 
 O Fado será muitas coisas, e não me cabe a mim defini-lo. Apenas posso enunciar aquelas que me parecem mais relevantes, aquelas com as quais intuo que poucos discordarão. 
  Antes de tudo, um princípio fundamental: quem tem autoridade para se pronunciar sobre estes assuntos é quem vive o Fado por dentro, seja desde sempre, seja a partir de uma certa altura da sua vida em que passou a fazê-lo de forma constante, consciente e (sempre!) por amor. Se todos podem dizer o que pensam sobre determinado assunto? Claro que sim. Se vou perguntar à florista aqui da rua quais as suas ideias sobre uma...

NEGRO CIÚME

Adoro a Fernanda Maria. Nunca me canso de a ouvir, seja em que contexto for, nem de a recomendar a todo e qualquer curioso que se inicia nos fados e me pergunta por onde começar. A Fernanda Maria é um dos expoentes absolutos na arte de bem cantar o Fado, e acho que isto é inegável. Ouvimos dizer frequentemente que não há nenhuma cantora e/ou fadista feminina, destas fornalhas que geraram as fadistas que ouvimos agora, no século XXI, que se aproxime da Amália, o que não podia estar mais certo. Mas da Fernanda também não, meus caros. Não há uma que lhe chegue sequer aos calcanhares. Nenhuma voz feminina destas fornalhas tem tanto Fado, actualmente. 
 Estava então aqui a deliciar-me enquanto a ouvia cantar maravilhosamente o “Negro Ciúme”, no Fado Alcântara, e perguntei-me por que razão está esta letra no rol das que já quase não são cantadas no circuito profissional (chamemos-lhe assim). Eu sei que se cantam poetas mais recentes e poesias “modernas", supostamente por estarem den...

JANELAS COM TABUINHAS

Imagino que escrever o primeiro parágrafo do primeiro texto de um novo blogue seja sempre um processo fodido. Confesso que assim o foi, talvez porque funcione como uma pequena carta de apresentação, do blogue e do autor, mas também como um filtro.
 Com este problema resolvido, passo a desenvolver a imagem maior deste espaço de partilha de ideias. Tenho demasiado respeito pelo trabalho árduo e sério dos escritores profissionais, e também pelo domínio técnico da língua, que não partilho. Este não será um blogue de alta qualidade literária. Mais do que mera montra de opinião, proponho-vos que o blogue seja um espaço de debate, um espaço que permita abrir portas a uma reflexão minimamente estruturada sobre esta arte a que chamamos Fado. O nome foi também objeto de alguma reflexão. Em abono da verdade, e embora adore os portais de madeira, aquilo que quero é debruçar-me sobre as suas tabuinhas, abrindo-as de par em par. A imagem é tirada de um fado sobejamente conhecido, com letra de Sil...