O FIM DO CLUBE DE FADO


Sei que uma parte da comunidade do Fado me vê como um fundamentalista 
da tradição, achando que sou um velho do Restelo altamente inconveniente e incómodo. Vou tentar agora mostrar-vos a conexão existente entre os motivos que me levam a dizer o que penso, e que, em última análise, levam a essa leitura errada sobre a minha postura, e a recente venda do Clube de Fado a um grupo económico.

O Fado será muitas coisas, e não me cabe a mim defini-lo. Apenas posso enunciar aquelas que me parecem mais relevantes, aquelas com as quais intuo que poucos discordarão.
 Antes de tudo, um princípio fundamental: quem tem autoridade para se pronunciar sobre estes assuntos é quem vive o Fado por dentro, seja desde sempre, seja a partir de uma certa altura da sua vida em que passou a fazê-lo de forma constante, consciente e (sempre!) por amor. Se todos podem dizer o que pensam sobre determinado assunto? Claro que sim. Se vou perguntar à florista aqui da rua quais as suas ideias sobre uma solução particular das equações de campo de Einstein? Claro que não.

O Fado é verdade. É partilha, é amor, mas é também uma forma de estar e de sentir que é peculiar e muito, muito rica. Será muitas outras coisas, obviamente. Umas que vos poderia dizer já e agora, e outras que, possivelmente, ainda não vejo. Mas sei exatamente aquilo que não é. O Fado não é música Pop. Não é a bateria nem o cajon; não são os vestidos curtos e provocantes, nem tão pouco os de estilistas de renome. Isso é mero acessório, fogo de artifício para atrair os adeptos da superficialidade e do fast food artístico. O Fado não é a visão do agente, que tantas vezes o detesta e o troca pela prata. Sobretudo, o Fado não poderá jamais ser reduzido a um ótimo produto económico, de venda fácil e segura. Senão, é caso para perguntarmos o que é que andamos todos aqui a fazer. A meter comidinha na mesa, exclusivamente? Ok, a comidinha é importante para todos, eu sei. Mas que caralho é que isso tem a ver com o Fado como arte de partilha e de verdade? E será que, ao sermos respeitadores e verdadeiros, deixaremos necessariamente de ter sucesso? Eu acredito que não. Mais do que isso, eu SEI que não.

Quando um grupo económico compra o Clube, não está apenas a fazer um investimento. Está a pegar numa casa com impressão digital distinta, numa casa de referência que refletia a riquíssima visão idiossincrática de um músico nascido e criado no Fado, e a transformá-la numa outra coisa. Diversificação da oferta por takeover amigável, entendamo-nos na classificação.
É certo que os fadistas e músicos profissionais, que irão fazer parte deste projeto de um grupo económico, são de qualidade inquestionável, mas isso nem está aqui em questão. Num grupo económico, quem manda, e mandará sempre, é a lógica da maximização do lucro, e bem acima de todas as outras coisas. Repito-me, eu sei, mas... que caralho é que isso tem a ver com o Fado?

A existência de casas de Fado que reflitam a forma de estar de donos que sejam do Fado é essencial para tentarmos preservar alguma coisa deste legado com quase dois séculos. Mesmo que não tenhamos forma de saber exatamente aquilo que era o Fado no século XIX, por ausência de gravações ou de fontes primárias que sejam várias, muito extensas e profundamente descritivas, temos uma boa ideia daquilo que foi no século seguinte, e é nisso que me baseio. São várias, as referências a casas de Fado que tinham donos que, mesmo sem serem fadistas ou músicos, amavam e viviam o Fado de uma forma muito própria. E ainda temos umas quantas, que se mantêm hoje com pujança. É por elas que me levanto para falar.

Estas casas têm algo que me agrada profundamente, e muitos saberão do que falo. Não há serviço durante os Fados. Faz-se silêncio quando se canta e toca. Respeitam-se músicos e fadistas. Fala-se de Fado, dos fados, das estórias e das paixões trocadas, que tanto nos inspiram. E nalgumas delas podemos desaguar no final daquelas noites em já acabámos a função mas ainda temos o diabo no corpo. Todos temos que aprender a conviver com os nossos próprios demónios, eu sei. Mas este demónio é um dos que acolho com carinho. Às vezes quero mesmo tocar mais. Ou ouvir, apenas. Quero partilha, porque não fiquei totalmente saciado, e preciso de um templo de convívio para apaziguar o lado profano da minha alma.

O Clube foi um legítimo elemento de qualidade no grupo das casas de Fado que potenciam este género de vivência, e que são absolutamente fundamentais para que o Fado possa manter a sua verdade, que não é imediata nem de acesso universal. Para a vermos teremos, por vezes, que abrir os olhos e afundar no que está do outro lado do espelho. E que bom que isso é!

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