NEGRO CIÚME

Adoro a Fernanda Maria. Nunca me canso de a ouvir, seja em que contexto for, nem de a recomendar a todo e qualquer curioso que se inicia nos fados e me pergunta por onde começar. A Fernanda Maria é um dos expoentes absolutos na arte de bem cantar o Fado, e acho que isto é inegável. Ouvimos dizer frequentemente que não há nenhuma cantora e/ou fadista feminina, destas fornalhas que geraram as fadistas que ouvimos agora, no século XXI, que se aproxime da Amália, o que não podia estar mais certo. Mas da Fernanda também não, meus caros. Não há uma que lhe chegue sequer aos calcanhares. Nenhuma voz feminina destas fornalhas tem tanto Fado, actualmente.
Estava então aqui a deliciar-me enquanto a ouvia cantar maravilhosamente o “Negro Ciúme”, no Fado Alcântara, e perguntei-me por que razão está esta letra no rol das que já quase não são cantadas no circuito profissional (chamemos-lhe assim). Eu sei que se cantam poetas mais recentes e poesias “modernas", supostamente por estarem dentro daquilo que serão as vivências e o sentir desta época. E bem. Mas quantas vezes se escolhem letras só porque ficam bem neste formato mais pasteurizado que o moderno fadinho do agente tanto procura? Para maximizar o dinheirinho, pois claro, e assim, de uma só vez, piscar-se também o olho a uma certa intelectualidade, à igualdade de género e à juventude.

Deixámos todos de sentir ciúme, portanto. O ciúme deixou de ser actual, deve ser isto, não? Ou passámos a senti-lo de outra maneira, de uma maneira mais moderna ou até "mais jovem", talvez? Esta letra não é mais cantada porque deixaram de existir pipis saudosos, com raiva e dor, assim de repente? Já não há por aí pipis fodidos da vida e a querer vingança, nem pipis cegos de ciúme e com vontade de partir a boca a outros pipis? Se calhar estou enganado, se calhar nunca assistimos a cenas de ciúmes e de amores mal parados nos fados. Devem ter encontrado uma vacina e ninguém me avisou. Ou então foram todos fazer terapia de casal.

Por que razão já não há coragem para cantar essa "dor com a alma a chorar”? O Fado não tem nada de politicamente correto nem de mercantilismo, não me fodam. Percebo que já não se cante "Eu tenho um marido pobre / que tem uma alma nobre / e é toda a minha paixão", mas só porque é mentira. Já praticamente ninguém sente as coisas desta forma, como na letra que deu o nome ao Fado Perseguição e que carece daquela verdade de que o Fado vive. Mas o ciúme?

Talvez devêssemos recuperar algumas destas letras, para começar, só aquelas que ainda fazem sentido porque o farão para sempre. E escrever umas novas em torno destes temas politicamente incorretos, mas intemporais. Que avancem os poetas não profissionais, os tais poetas populares que nos metem no canto as palavras das coisas que sentimos, mas de uma forma mais próxima da compreensão de todos. Algo me diz que daí até termos outra vez originalidade no Fado serão dois passos. Porque o Fado é uma expressão de verdade e o ciúme é sentimento verdadeiro, que nos leva as emoções ao extremo do descontrole. O ciúme é muito poderoso; é algo que nos mexe com as entranhas ao ponto de as apodrecer por um bom tempo, sufocando até a capacidade natural de nos entregarmos a outra pessoa. O ciúme muda-nos e faz-nos questionar a nossa própria natureza, e isso é fundamental para o processo criativo. Sabem todos do que falo, sejamos honestos. Então, se o sentem, por que razão não o cantam mais? E com a alma a chorar, caralho. Porque "Onde outrora era dia risonho / Cai a fria noite, negra e sem luar" continua a ser muito bom. E eterno, vá, escutem lá uma vez mais, e aprendam; estamos sempre a aprender – falo também por mim – e mesmo que seja apenas o acto de relembrar, até isso já é quase aprendizagem. De caminho, atente-se ao acompanhamento, que também é de luxo.

https://youtu.be/ljEGxhDJqb0

Comentários

  1. “É sentir lume, ódio, rancor, negro ciúme (...)”. Visceral e genial como o nosso fado.
    Vassalagem ao puro sentimento ♥️

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    1. É bem verdade. Agora é só esperar pela brigada feminista, que vai achar que eu acho que o ciúme é exclusivo das mulheres, o que é falso. Sentimos todos igual, mas exteriorizamos diferente. Embora o conteúdo do ciúme masculino seja o mesmo, a sua manifestação é muitas vezes exteriorizada pelo conflito físico, coisa que reprovo. Também é revelador, mas prefiro a forma do feminino. Tem mais sabor a Fado.

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